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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ANTÔNIA - 10


Havia uma tatuagem no seu braço direito que ia do ombro até o punho, até hoje eu não consegui distinguir o desenho, parecia demônios e anjos, todos juntos.
Ela parecia assustadora, mas era a única que eu mantinha algum contato. Não perguntei o motivo da sua prisão, sei apenas que não matou ninguém.
Ela ligou o rádio em músicas agitadas – ninguém reclamou.
No dia seguinte, depois do trabalho, voltei para a cela e o radinho estava ligado. Angela, gentilmente, deixou eu mexer nas estações, depois que dei a ela paçoquinha. Aqui é assim, toma lá dá cá. Tudo à base de troca.
Sentei no meu cantinho direito da cela e comecei a rodar o botão preto à procura de algo para ouvir. Umas estavam conversando e outras jogando baralho; naquele momento, eu estava ali sozinha.
Passei várias músicas, mas minha mente não queria ouvir músicas, eu queria algo mais profundo, que preenchesse aquele vazio na minha alma. Ultimamente, estava com vontade de me matar, mesmo trabalhando e ganhando o meu pagamento no final do mês. Eu estava presa, estava sofrendo, nem quando meus pais morreram tive tanta vontade de me matar!
Sabe, tenho sonhado com mortes. Não sei se é porque aqui convivo com pessoas que só falam nisso, mas dentro de mim está fluindo um desejo de morte. Sonho como posso fazer isso. Sonho com cordas amarradas em volta do pescoço, com facas sendo enfiadas na barriga. Essa noite eu sonhei em colocar veneno na comida, dar para as outras meninas e comer também. Às vezes escuto alguém me chamar, fico toda arrepiada. Tenho medo de morrer quando estou dormindo. Minhas companheiras de cela não me aceitam, querem o meu mal.
Sinto uma vontade de morrer como meu pai. Hoje eu entendo o desejo dele de subir naquela árvore e se enforcar… Estou com a mesma vontade. Existe alguém, que fica falando na minha cabeça o tempo todo, que se eu fizer isso vou ter paz. A paz que eu quero, que eu tanto desejo… Diz que vai ser gostoso, que eu não vou sentir dor…Não sei…
Continuo passando as estações a procura de algo que me preencha.
Um homem está falando pausadamente. Paro e ouço. Coloco o rádio no volume baixo e aproximo dos meus ouvidos. A voz dele é mansa…
“Que Deus abençoe a todos abundantemente! Meu amigo e minha amiga, nesse momento, em Nome do meu Deus, do Senhor Jesus, seja liberto de todo o mal que tem afligido o seu coração. Seja liberto de todo sentimento do coração. Eu determino que, nesse momento, haja a proteção do meu Deus em você.”
Ele disse que Jesus ouve a nossa oração quando falamos com fé, crendo, e que Deus não quer que soframos. Ele é real e nos dá autoridade para pisarmos serpentes e escorpiões.
Nessa hora, coloquei minha cabeça para pensar. Se eu estou nesse inferno, então não é da vontade de Deus que isso continue. Não foi Ele quem me colocou aqui. Eu posso fazer uma oração e, crendo na proteção desse Deus apresentado, posso mudar de vida.
Imediatamente fechei meus olhos. Eu não podia me ajoelhar, poderia apanhar por isso. Fiquei imóvel por um momento, desejando ardentemente aquelas palavras maravilhosas de libertação. Finalmente, estava ouvindo algo para mudar a minha vida!
Capítulo 11
Méuri Luiza

ANTÔNIA - 9


Eu não imaginava que uma criança poderia mudar o olhar de uma mulher que tem coragem de matar. Ela ficou medindo a menina em seu corpo e mostrava que estava muito menor na última vez que a viu. Acho que fazia tempo que não via a filhinha. Percebi que naquele momento seu olhar mudou, não parecia a mulher possuída pelo demônio dos outros dias.
Quem sabe ela não seja ruim, mas sim um mal esteja dentro dela. Sim, porque quando dá ordens para matar, seus olhos ficam escuros, seu semblante se transforma, parece realmente possuída por algo maior que ela; mas, com a filha não, ela se mostrou uma mulher frágil e carinhosa com aquele ser tão pequeno e indefeso, que demostrava seu amor sem querer nada em troca, um amor puro, amor de filha e mãe.
Cadú ficou abraçada com a menina por um bom tempo, parecia não querer mais largá-la.
O tempo das visitas é pequeno, mal dá para matar a saudade. Quando tocou o sinal da despedida, Cadú chorou. Beijou a filha mais uma vez e pegou de suas pequenas mãos o galhinho de flor cor de rosa. Realmente, dentro dela, tem um coração. Nem eu acreditaria nisso se não tivesse visto suas lágrimas.
Todos foram embora, e as presas voltaram cada uma para a sua cela, com fotos, desenhos, presentes, comidas, doces… As paredes ficaram enfeitadas com desenhos e frases das crianças.
Outra coisa que é bacana é quando elas recebem pasta dental e desodorante. Realmente é mais fácil a convivência quando o cheiro é menos agressivo.
A noite foi mais tranquila. Pela manhã recebemos a notícia da menina que estava com tosse, era tuberculose e ficou internada. Todas nós tivemos que fazer exames para ver se alguém havia se contaminado.
No dia seguinte fui chamada na sala da supervisora. Todo mundo lá era tratada por senhora. Eu nem sabia o nome das funcionárias, apenas chamava de senhora.
Ela me disse que por causa do meu bom comportamento poderia trabalhar na ala das operárias durante o dia e à noite voltaria para a minha cela. Recebi essa notícia com muita alegria, afinal, eu teria como ganhar um dinheiro e quando saísse poderia me virar nesse mundo de meu Deus.
Me deram um uniforme cinza, uma calça bem larga e uma camiseta. O tênis era branco e sem cadarço.
Fui, então, levada para a sala de máquinas. Eram muitas máquinas de costura enfileiradas, tinha uma cadeira de madeira e linhas ao lado.
A encarregada me chamou e mostrou minha máquina. Fiquei muito feliz, iria iniciar um trabalho digno. Não via a hora do outro dia chegar. Quando acordei, ainda era noite; esperei a hora do portão abrir e a policial vir me buscar.
Meu coração estava feliz!
No trabalho, apenas o barulho das máquinas. Ninguém conversava, todos ficavam atentos a cada detalhe.
Uma funcionária muito educada me chamou e mostrou como deveria ligar e operar a máquina de costura. Me ensinou a colocar a linha na agulha e passar a reta em cada parte das roupas. Perguntei para onde eram as peças, e ela me respondeu que era para uma empresa de uniformes.
Foi um pouco difícil no começo, toda hora eu a chamava para me ajudar e me orientar. Sempre com sorriso, ela me explicava. Havia algo diferente naquela mulher. O espírito dela não era igual ao das presas, era algo suave e muito gostoso de estar perto. Com o tempo descobri que ela fazia parte daquele grupo evangélico que um dia veio nos visitar.
Levei dois dias para pegar o jeito daquela máquina enorme, mas finalmente consegui. Em uma semana, dominei-a e estava cada dia mais animada com o meu novo serviço.
Quando eu voltava para a cela, estava tão cansada que nem sentia mais os pernilongos me picarem. A gente tinha o horário correto da comida, e ela era servida quentinha.
Um mês se passou, e eu estava aprendendo muito, mas em nenhum momento me esquecia da injustiça feita comigo.

Novamente era dia de visitas. Eu não trabalhava no domingo. As famílias vieram visitar as detentas. Presentes e comidas, uma alegria para elas. Angela recebeu um radinho de presente. Pelo que entendi, sua mãe era evangélica, e ela nunca quis saber de ir junto para a igreja. Foi mesmo para o mundo do crime. Ela usava cabelo vermelho-sangue, com pontas amarelas. Tinha sinal de brincos por todo lado. Como na cadeia não pode entrar com eles, teve que tirar, mas as marcas estavam sob seu rosto todo.
Capítulo 10
Méuri Luiza

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ANTÔNIA - 8


Tem mulheres que sofrem a dor da saudade dos filhos. Elas choram escondidas em cima das fotos, dos desenhos que seus bebês fazem. No final da visita tem papel colado por toda parede.
Muitas diminuem a saudade passando os dedos pelos rabiscos feito pelos seus amores.
Uma delas, tem uma linda menina de um ano e meio. A criança está sendo criada pela avó, que é mais pobre que tudo, mora no meio da favela e nem tem leite para dar à pequena. Essa triste e desesperada mãe vende cigarros aqui. O dinheiro que ganha, esconde no colchão e quando sua mãe vem visita-la, entrega em suas mãos o pequeno valor para a compra do alimento da filha.
As vezes penso que a mãe da Mariana só vem visita-la por causa do dinheiro. O olhar dela é frio, não demonstra nenhum amor…
Acredito que ela só está viva aqui nesse inferno, por causa da sua bebê, senão com certeza já teria se matado e saído desse lugar, mesmo que fosse morta.
Teve uma discussão entre elas aqui, isso acontecia todos os dias, mas, dessa vez, elas fizeram o que prometeram. Uma das meninas desafiou a autoridade da Machadinha e, pela manhã, fez a garota beber da própria urina. E disse que da próxima vez ela iria beber da urina das outras presas.
Há outra cujos dentes foram quebrados com socos. Sua boca ficou toda estourada, seus lábios ficaram muito inchados e três dentes jogados no chão.
Aqui se apanha por levantar os olhos, ou nem por isso, se elas não gostam de você lhe matam, é simples.
Eu ainda não sou aceita aqui e nem quero mesmo. Quero sair logo desse inferno. Continuo dormindo no chão, no canto direito da cela. Os pernilongos e percevejos são incontáveis, existem por todo lado. Minha perna está em carne viva de tantas picadas.
Essa noite não consegui dormir. Uma das detentas estava tossindo muito, a menina ardia em febre. Era uma tosse grossa, muito carregada com sangue e pus. Há alguns dias eu reparei que ela não estava se alimentando – também, a comida é horrível – emagreceu bastante e estava muito debilitada. Pela manhã, quando chegou o desjejum, ela não comeu. Seu pão emborrachado foi tragado pela Machadinha. Ela recebeu esse nome porque matou seu companheiro com uma machadinha, esquartejou o corpo dele e colocou no porta malas do carro. Pois é, são com essas pessoas que eu estou compartilhando uma cela… Eu, que não fiz nada. Por isso não aceito essa injustiça comigo!
Passo meus dias sem falar com ninguém, nem ouso levantar meus olhos. Se alguma delas perceber que estou olhando para a sua direção, posso apanhar até morrer.
Chegou domingo, é dia de visitas. Os familiares chegam por volta das 14h para visitar as meninas. Às vezes fico na esperança de aparecer alguém para me visitar… Mas quem? Eu não tenho ninguém. A minha irmã nem sabe que estou aqui, e nem quero que saiba, ela pode ficar preocupada e não quero isso. Outro dia, vieram alguns evangélicos e trouxeram uns livros. Conversaram conosco e deram uma palavra de paz…
Paz, uma palavra tão pequena mas tão importante nesse lugar, porém algo impossível… Queria tanto que eles voltassem…
Geralmente quem visita são mães e filhas. Elas são revistadas, e nem todo tipo de comida pode entrar. Algumas levam sabonetes e shampus, outras chocolates e doces, outras não levam nada, apenas o amor… Isso já é o suficiente para quem vive no inferno.
Reparei que algumas meninas ficam nas celas, como eu, porque não tem ninguém que as visite. As outras ficam no pátio com os seus. Vi uma menina linda, de uns quatro anos, gritar a palavra “mãe”. Ela correu em direção a alguém. Não pude deixar de acompanhar os passos da garotinha a fim de descobrir quem era a sua mãe. Para a minha surpresa, é filha de Cadú, a detenta mais temida da cadeia. Ela é a chefe de alguma coisa lá fora e domina a área de dentro também. Todos a respeitam e a obedecem. Foi ela quem deu ordem para bater até matar a Ana.
Cadú pegou a menina nos braços e a abraçou com toda força. Acho que sua mãe trouxe a filha para a visita.
Continua na próxima terça feira
Méuri Luiza

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ANTÔNIA - 7


Por alguns segundos, minha mente voltou ao passado, me fazendo lembrar os dias em que brincava com minha irmã no milharal… Minha irmã … Tenho que sair daqui para cuidar dela…  inclinei minha cabeça e chorei.
Vi pessoas muito bonitas de terno e gravata passando de um lado para o outro. As mulheres de preto ou de cinza, com seus terninhos apertados e saltos. O perfume delas era muito bom, usavam maquiagem e estavam sempre com muito papel e pastas em baixo do braço. Fiquei com vergonha… A chuva molhou meu cabelo e minha roupa, estava cheirando a cachorro molhado. Eu me sentia e era um lixo.
Sem saber, fiz um movimento para coçar minha perna, e as algemas se apertaram em meu pulso ainda mais. Senti muitas dores, parecia que estava rasgando a minha pele. Tentei falar com uma policial que estava perto, mas ela me mandou calar a boca.
Tive vontade de chorar…Eu estava sendo desprezada, humilhada, não tinha ninguém, estava com fome, suja… Eu era sozinha… Não resisti e chorei. Havia uma vazio muito grande dentro de mim. O desespero é imenso. A humilhação que uma presa passa é muito grande.
Naquele dia, o policial não me deixou falar nada, tudo o que parecia não era. Nunca trafiquei, nunca roubei, nunca me prostituí. Eu só queria lavar o vidro dos carros para ganhar uns trocados e comer…
Alguém chamou o meu nome. Fui puxada pela camiseta e levada até uma sala. Me tratavam como um bicho.
Tudo muito bonito, móveis escuros e grandes. Dois policiais armados entraram comigo, um de cada lado. Uma juíza mandou eu me sentar. As algemas doíam tanto que tive que pedir:
- Senhora, pelo amor de Deus, dá para afrouxar um pouco essa algema? Eu estou morrendo de dor.
Ela balançou a cabeça autorizando. Quanto alívio em meus punhos, mas isso não impediu que eu sentisse o sangue correndo pelas minhas mãos.
Muitas perguntas foram feitas, inclusive sobre a minha família. A doutora achou estranho eu não ter documentos, achou que eu estava mentindo, mas expliquei que de onde eu vim isso não existia:
-  A gente, lá no sertão, não tem documento para nada, tudo é feito por base de confiança na palavra da pessoa. Além disso, quando meus pais morreram, eu era pequena, e não haviam me registrado no cartório por ser muito longe, nem a minha irmã tem registro.
Ela me ouviu atentamente, escreveu algo em um papel e me mandou sair da sala. Chamou outro nome, e assim por diante. Todas nós fomos atendidas. Eu até tentei dizer minha idade, mas acho que ela não acreditou. Devido o trabalho no sertão, nossa pele fica grossa de tanto sol e nossa aparência é muito mais velha do que somos…
Por volta das 15h, voltamos para o presídio. Voltei para a cela. O horário do almoço já havia passado e ninguém pegou a minha marmita. Mais uma vez me senti um lixo e sozinha. Fiquei com fome até a noite, quando chegou o mingau de arroz. Eu nem senti o gosto ruim dele, queria mesmo acabar com a minha fome.
Aqui na cadeia tem gente de todo tipo. Mulheres que mataram seus familiares ou alguém desconhecido; que roubaram; traficaram; e outras são um tal de 171. Aqui tem gente muito ruim, que quer, a todo momento, derramar sangue. Parece que elas procuram briga para fazer guerras. Os palavrões são todo tempo, os xingamentos e mentiras são inúmeros. Aqui dentro, o diabo reina, é o senhor dessas meninas.
Uma delas é chefe de alguma coisa no morro. Ela dá ordem daqui de dentro e a pessoa lá fora é morta. Eu não entendo como alguém que está presa em uma cela pode dar ordens aqui e outras pessoas lá fora executarem. É incrível! Uma palavra dela aqui move o mundo de lá.
Capítulo 8
Méuri Luiza

sábado, 28 de julho de 2012

ANTÔNIA - 6


Uma é diferente da outra. Marta foi presa por porte de armas e homicídio. Ângela e mais quatro delas, porque estavam traficando. A loira, que não sei o nome, matou o filho e nem se lembra. Depois ficou chorando sobre o corpo dele. Ana Claudia decapitou o marido. Ela disse que ele estava traindo-a com a vizinha. Sua vontade era de matar a vizinha também, mas a polícia chegou na hora e a prendeu. Todas estavam esperando por julgamento. Nenhuma mostrava arrependimento.
Eu queria entender porque estava lá. Não havia motivos. Eu estava trabalhando na hora que a polícia chegou, mas eles não acreditaram em mim. Talvez, também, porque não tenho documentos… Minha pele é queimada do sol e tenho aparência muito mais velha do que sou.
A saudade de casa é muito grande. O sonho de ser alguém com o tempo vai sumindo de dentro da gente. Não há perspectiva de mudança. Não existe uma luz no fim do túnel. Para quem é detento, não há mais chance de felicidade… pelo menos é o que a gente pensa aqui dentro.
Cada uma tem uma história diferente. É um lugar de muita dor e muito frio. Há relatos de mulheres que mataram e nem sabem que o fizeram. Disseram que quando deram por si, havia um corpo ensanguentado em sua frente e sua roupa coberta do sangue do cadáver.
Outras querem sair da vida do tráfico, mas não conseguem. Sozinha é muito difícil, acho que é impossível.
Tem uma viciada na cela ao lado. Ela treme muito quando fica sem a cocaína, mas quando consegue a droga delira dizendo estar vendo pessoas que ninguém vê.
Tinha medo de dormir e me matarem. Ficava no canto da cela. Não tinha colchão, dormia sentada no chão. Elas não me aceitaram e me olhavam sempre com ódio, querendo comer o meu fígado. Do jeito que elas eram, podiam até comer mesmo.
No dia seguinte, o almoço novamente foi servido. Desta vez, olhei para o alumínio e reparei no que estava dentro. Um arroz grudento e caroços de feijão seco. Não tinha sabor. Uma delas me relatou que eles juntam todo o resto da comida, lavam novamente e requentam com cebola. Eu achei estranho, mas o gosto não era de comida feita naquele dia… Novamente o pãozinho estava emborrachado.

Quatro meses se passaram e eu estava na mesma situação. O desespero começou a tomar conta de mim, porque não tinha  ninguém para telefonar,  ninguém para pedir ajuda, eu não sabia o que fazer…

Comecei a usar as roupas do presídio. Um uniforme rosa e cinza. A camiseta era lavada e estendida nas grades. O cheiro forte de suor não saía com água, isso quando a gente conseguia lavar a roupa.
Dentro da cadeia cheira podre. Restos de comida ficam do lado de fora da cela, porque, às vezes, a marmita cai, e a presa fica sem o alimento.

Mais duas semanas se passaram e uma policial chamou alguns nomes pela manhã, o meu estava no meio. Disseram que era dia de irmos até o Fórum, não sabia ao certo o que seria isso, só sabia que o meu nome estava lá.
Tomamos banho e colocamos camisetas limpas. Estavam amarrotadas, porém limpas. Ficamos em fila, uma atrás da outra. O dia estava chuvoso, a água descia do céu e molhava o nosso corpo. O tênis era sem cadarço. Não podia usar brincos, correntes, cintos, anéis ou relógios. Se bem que eu não tinha nada disso. Então, não fez nenhuma diferença para mim. Uma policial nos revistou. É deprimente o jeito que colocam as mãos na gente… dá para perceber a raiva que elas têm das presas.
Enfim, subimos em um caminhão todo fechado e cheio de pernilongos. Não havia janelas, o lugar era escuro e muito, muito abafado. Era dividido por uma chapa de metal e possuía um banco com capacidade para oito pessoas. Cinco meninas ficaram em pé. O motorista parecia que estava tirando o pai da forca de tanto que corria, e o barulho da sirene era ensurdecedor.
Não dava para ficar parada em um só lugar de tanto que o caminhão ia pra lá e pra cá. Saí dele com muito enjoo. Levou mais ou menos uns 20 minutos até o Fórum. Eu não sabia quem era o Fórum, depois percebi que não era gente, e sim um lugar onde o juiz iria conversar conosco. Antes de descermos, a policial nos algemou. Três policiais ficaram nos vigiando com a arma em punho. Uma delas mandou eu colocar as mãos para trás e ateou as algemas em meu braço. Foi apertando até eu dar um gemido, aquilo incomodava muito. Ela riu de mim. Seu hálito tinha cheiro de cravo da índia, tipo aqueles que a minha mãe colocava na canjica…
Que saudade daquele tempo…Eu era feliz e não sabia.
Capítulo 
Méuri Luiza

sábado, 21 de julho de 2012

ANTÔNIA - 5


Elas batiam nas grades e faziam muito barulho. Eu não acreditei que alguém teria coragem de fazer isso… Mas fizeram. Dez mulheres em cima dela. Uma baixinha invocada rasgou pedaços da camiseta de Ana e amarrou seus braços e pernas. Ela ficou com as mãos e pés amarrados nas costas. Muitos chutes foram dados em sua barriga, acho que ela estava grávida. Levantaram o rosto dela para trás, puxando seus cabelos, e muitos socos ela levou na boca. Muito sangue era jorrado no chão. Seus olhos ficaram inchados e roxos. Percebi que ela não tinha mais força…Estava morrendo…
Comecei a chorar no canto da parede.
Queria socorrê-la, mas se eu falasse qualquer coisa, com certeza seria a próxima. Quanto desespero! Meu coração não estava aguentando ver tudo aquilo. Eu não conhecia a moça, mas, por pior que ela fosse, ninguém teria o direito de matá-la assim.
Acho que todas estavam acostumadas a ver aquelas cenas. Enquanto umas tomavam sol, outras conversavam sem nem olhar para o centro da quadra. Eu estava no desespero, vendo aquela situação. Me lembrei de minha irmã. Naquele momento, uma policial deu um grito. Com a arma em punho deu voz para todas saírem de perto da quase morta. Atrás dela vieram mais sete policiais homens, todos com as armas em punho.
As presas se afastaram e riram. Os policiais entraram e arrastaram Ana para fora do pátio. Só ouvi o barulho da sirene do carro da polícia. Creio que a levaram para o hospital.
No dia seguinte, recebemos a notícia de que Ana havia morrido. Ela não suportou os ferimentos. Realmente ela estava grávida de três meses e deixou uma filha de sete anos. Coitada da menina. Coitada da Ana! É assim que vivem essas mulheres… sem esperança e sem vida…

Trouxeram o nosso almoço. Eu estava com muita fome. Dois dias sem comer. No primeiro dia, as presas da cela comeram minha comida; no segundo, não tivemos alimentação, porque nos castigaram devido ao acontecido com Ana.
Eu nem esperei a comida chegar. Coloquei meus braços para fora da cela e alcancei a minha marmita. Nem precisei de garfo, comi com as próprias mãos, tamanha era a minha fome.
Minhas mãos ficaram fedidas de óleo, minha boca estava amarga, mas meu estomago estava forrado, minha fome passou.
Limpei-me na camiseta velha e rasgada que já estava em meu corpo há três dias. O mau cheiro dela já estava sendo exalado. Eu estava suja. Queria muito tomar um banho, mas a água é racionada e tem um gosto horrível de cloro. À noite eles serviram um mingau de arroz sem açúcar. Estava horroroso, mas eu comi mesmo assim.
Outro dia iniciou-se. Colocaram o café da manhã nas grades. Um saquinho de leite pequeno de 200ml e um pão emborrachado com margarina derretida por causa do calor.
Meu desejo era de escovar os dentes. Meu hálito estava terrível e o meu suor estava pelo corpo todo. Isso foi suficiente para uma delas invocar comigo. O olhar era estranho, parecia não ser humano. Ela se transformou e veio em cima de mim. Uma mulher de 90 kilos me pegou pelo pescoço, levantou meu corpo franzino e me jogou no chão. Com chutes na barriga foi me jogando para perto da parede. Fiquei acuada e sem reação. O medo estava estampado em meu rosto. Comecei a me encolher, tentando me proteger, quando de repente, ela saiu de perto de mim e foi para o outro lado. Ninguém esboçou nenhuma reação. Estavam conversando entre si e ali permaneceram.
Naquela noite eu chorei de tanta dor e não tinha ninguém para me dar remédio e cuidar de mim.
Me lembrei de minha mãe, que um dia, eu com dores de barriga, me  fez um chá. Me colocou em seu colo e fez massagens com suas santas mãos…
Aqui somos sozinhas. Não confiamos em ninguém. Não somos amadas. Até a família de muitas presidiarias, as odeiam e as condenam.
A cela é muito pequena, deve dar mais ou menos cinco passos para a direita e quatro passos para a esquerda. Estávamos em doze meninas…
Capítulo 6
Méuri Luiza

terça-feira, 10 de julho de 2012

ANTÔNIA - 4



Pela manhã me levantei e fui a procura de emprego. Rodei as ruas até minhas pernas não aguentarem mais, mas não consegui achar nada. Eu não tinha documentos nem carta de referência, e não havia trabalhado em nenhum outro lugar antes. Estava muito difícil!
Os dias se passaram e meu dinheiro acabou. Não consegui trabalho, não enviei nada para a minha irmã, e agora não tinha mais como ficar no albergue.
Implorei para a mulher estranha me deixar ajudar a limpar os quartos em troca de lugar para dormir. Ela gritou comigo, dizendo que sem dinheiro nessa vida não se faz nada.
Naquela noite resolvi limpar os vidros dos carros no semáforo. Havia umas mulheres vendendo drogas ao lado. Não quis ficar perto, não queria confusão. Eu somente soube que eram drogas porque ouvi os comentários e muita gente chegando para comprar. De repente vieram quatro carros de polícia, ninguém teve tempo nem para piscar. Eles cercaram o local e tivemos que ficar deitados no chão. Tentei explicar que eu não tinha nada a ver com aquilo, mas eles não me ouviram. Eu estava com uma roupa velha, chinelo de borracha e cabelo preso com um elástico. Acho que eles pensaram que eu também era traficante. Pediram meus documentos, mas eu não tinha. Onde eu morava não havia documentos, tampouco a gente assinava alguma coisa, tudo era tratado de boca a boca, à base da confiança.
Tentei falar, porém eles não me ouviam.
Fui jogada dentro do porta malas do carro junto com outras duas meninas. Uma morena e outra ruiva. Olhei para as mãos de uma delas, estavam com os dedos escuros – creio que era por causa do cigarro. O olhar delas era de angustia e, ao mesmo tempo, de ódio. Pude sentir a dor delas.
Tinha a certeza de que seria solta naquela mesma noite, afinal, eu não tinha nada a ver com aquilo tudo.
A morena disse que não queria voltar para o inferno. Também não compreendi sua frase, até a manhã seguinte…
Fui lançada em uma cela. Apenas me jogaram lá e não me perguntaram nada…
Meu estômago estava doendo de fome, minha cabeça doía. Uma policial chegou perto das grades e perguntou o meu nome. Respondi Antônia. Pediu os documentos. Disse que não tinha. Perguntou sobre os meus pais, sobre a minha família, onde eu morava. Eu não tinha ninguém, apenas a minha irmã. Ela riu e saiu.
Um homem com uma barriga grande mandou me chamar. Perguntou se eu tinha advogado. Eu nem sabia o que era isso. Perguntou se eu tinha dinheiro para pagar um. Disse que não. Novamente outro riso. Ele chamou outro policial e me colocaram em outra cela; nessa, agora, havia muitas meninas. Eram sete, comigo oito. Não fui aceita lá…
- Garota, aqui quem manda é a gente. Você vai dormir no chão e comer somente o que a gente der. A partir de agora a sua comida é a nossa comida.
Enquanto a loira alta falava daquela forma comigo, as outras seis ficaram com os braços cruzados me olhando com muito ódio. Tive muito medo… me encolhi no canto da cela, coloquei os meus joelhos junto ao meu corpo e tive vontade de morrer…
Eu não havia feito nada, estava trabalhando no semáforo, queria apenas me alimentar e pagar um lugar para dormir…
Eu estava conhecendo o inferno que a menina havia falado na viatura. Eu fui apresentada ao inferno…
Naquele dia, houve uma rebelião na prisão. As presas já haviam combinado como seria. Quando as portas se abriram para tomarmos sol, todas saíram juntas gritando: “Ana é morta!”
Eu fiquei atrás, tive medo de sair, mas uma delas me empurrou com tanta força que caí no chão e machuquei o meu joelho. Olhei para o centro da quadra e uma moça de uns vinte e cinco anos estava estirada  com o rosto no chão. Todas começam a gritar:
- Hora da morte! Hora da morte!
Capítulo 5
Méuri Luiza

quinta-feira, 5 de julho de 2012

ANTÔNIA - 3


Fui para a rede chorar um pouco. Eu tirei a rede do pai e da mãe e troquei por mais duas galinhas há três semanas. Sei que daqui a pouco vou ter que matar as galinhas para a nossa alimentação. Não sei fazer esses animais se multiplicarem, tampouco fazer um plantio de mandioca ou de milho se transformar em uma fonte de renda para a gente. Sou uma menina ainda, não sou adulta!
Muitas responsabilidades foram colocadas em minhas costas antes mesmo de eu ser mulher! Será que ninguém pode me ajudar? Não é necessário ajuda financeira, apenas dar instruções de como pode ser feito…
Há um homem na cidade que é muito inteligente. Sempre que vou trocar leite por feijão, vou até a venda dele. É o único que aceita esse tipo de troca. Outro dia eu pedi a orientação dele. Ele me olhou de cima a baixo e disse umas coisas que não entendi. Só sei que não gostei do seu olhar, achei muito esquisito. Meu pai nunca me olhou daquela forma…
Os anos foram se passando e nossa vida sempre na mesma, ou melhor, piorando cada vez mais.
Eu não poderia deixar a minha irmã passar fome, mas naquele lugar a gente iria morrer. Resolvi, então, fazer uma tentativa. Era a única saída, não tinha outro jeito. Fui até o nosso vizinho, aquele que ajudou a tirar meu pai morto da árvore. Pedi que ficasse cuidando da Márcia, pois eu iria para outro estado tentar a vida. Do jeito que estávamos, não teríamos nenhuma chance de sobrevivência. Essa era a única luz que eu via no fim do túnel. Prometi que enviaria dinheiro para ajudar nas despesas dela. Eu me sentia mais segura deixando-a com uma família. Arrumamos suas coisinhas, tinha pouquíssima roupa e apenas um par de sandálias. Coloquei em duas sacolas e levei-a para casa da Zefa. Meu coração apertou tanto que não contive as lágrimas. Sofri muito ao deixá-la, mas tinha que ser assim.
Pedi ao Seu Dito para vender a casa, mas não tinha documentação nenhuma. Lá, naquele fim de mundo, a gente conversava e fazia negócios à base de palavras. Nossa palavra tinha muito poder e confiança. O dinheiro que ele conseguia era para suprir as despesas da Márcia. Minhas coisas deram apenas em uma sacola. Prendi meu cabelo com um elástico e fui para a estrada, a fim de pegar uma carona. Levou mais ou menos duas horas para passar um caminhão. Fiquei esperando naquele sol ardente que comia a nossa pele. Enfim, a carona chegou.
Um senhor parou e entrei em seu caminhão vermelho, enferrujado, todo coberto de terra e tão quente que mal dava para respirar. Ele era muito simpático, lembrava meu pai… Tenho saudades de meus pais. Eles fazem muita falta. Cheguei à cidade grande. Era grande mesmo.
Pessoas lindas circulando pelas ruas. Havia carros por todo lado. Fiquei um tanto assustada. Não tinha muito dinheiro, apenas duzentos reais para arrumar um lugar para passar a noite e conseguir um emprego. O senhor do caminhão me disse que conhecia um albergue que aceitava meninas, era barato e eu poderia passar a noite lá.
Ele me deixou na porta. Era um lugar feio, todo sujo. Pessoas estranhas passavam por ali, diferentemente do centro da cidade. Tive sorte, havia um quarto vago. A mulher da recepção primeiro quis o pagamento da diária, para depois me deixar entrar. Coloquei a minha sacola dentro de um guarda-roupa de duas portas todo descascado.
A cama era pequena, o colchão duro, porém, não fazia diferença para quem dormia em rede. As paredes eram beges, tinha bolor, toda descascada, não valia o preço que pediam na diária, mas era tudo o que eu tinha. Viajei o dia todo e quando cheguei já era noite; queria descansar um pouco. Naquela noite, antes de desmaiar de tanto sono, chorei… estava me sentindo sozinha e com medo daquela cidade imensa.
Continua na próxima terça-feira

terça-feira, 26 de junho de 2012

ANTÔNIA - 2


Em uma manhã, eu fui pegar algumas mandiocas para cozinhar e comer e vi alguma coisa pendurada na árvore. Minha irmã estava dormindo. Eu cheguei perto e quase desmaiei. Minhas pernas estremeceram, meu coração disparou e as lágrimas caíram sem parar dos meus olhos. Meu choro foi tanto que cheguei a soluçar. Vi meu pai com uma corda no pescoço. Seus braços estavam soltos, a língua para fora, os olhos muito abertos olhando para mim e seu rosto muito roxo. Ele se enforcou com uma corda que tínhamos para amarrar os barris. Nunca mais vou me esquecer dessa cena. Não queria que minha irmã visse, mas não consegui evitar. Ela acordou e veio atrás de mim. Quando percebi, a pequena Marcinha estava ajoelhada no chão de terra vermelha com as mãos na boca. Eu me lembro como se fosse hoje, pegamos o carro de boi e fomos até nosso vizinho. Contamos o acontecido, e ele, juntamente com seus dois filhos, foram até a árvore.
Tiraram o pai de lá e o enterraram ao lado da nossa mãe. Fizeram mais uma cruz. Agora, ela não estava torta.
Meu pai não conseguiu ser forte, ele se matou. Ouvi dizer que quem se mata vai para o inferno. Então, ele deve estar lá.
Enfim, ficamos sozinhas, eu e minha irmã em um sertão sem fim. Aprendemos a pegar água do riacho… Claro que trazíamos muito menos água do que meu pai, a gente quase não tinha forças… Nós paramos de brincar no galinheiro com as galinhas e nem fazíamos mais bonecas de espigas de milho. O nosso tempo era remido.
Eu tinha que sustentar a casa agora. Eu, simplesmente eu, uma menina com 15 anos de idade, tinha que sustentar a irmã com 13. Por isso, virei a sua mãe, a sua protetora, a sua vida. Ela se baseava em mim para tudo. Eu não poderia jamais deixá-la de lado. Tive uma filha sem ficar grávida.
O tempo foi passando e a vida ficou muito dura para nós. Acordávamos ainda de noite para buscar leite na casa vizinha. O pai de família chamado Seu Dito – era Benedito, mas todo mundo o conhecia por Dito – era casado com a Zefa – acho que o nome todo era Josefa, não sei bem, eu não tinha tempo nem para conversar mais e saber da vida das pessoas.
Ele dava todo dia um litro de leite tirado diretamente da vaca para nós, mas tinha uma condição: a gente tinha que ir lá buscar. Ele nem se importava se éramos pequenas; se a gente não fosse lá, não tinha leite. Não sei se minha mãe agiria assim com um vizinho que não tem pai e mãe…
Nós não tínhamos geladeira, então o leite teria que ser consumido no dia, senão talhava.
Eu não tinha dinheiro para comprar açúcar, por isso o leite era aferventado em uma vasilha de alumínio e a gente bebia sem nada, apenas o leite e a espuma. Com o tempo, a gente se acostuma e nem sente a falta do doce no leite.
A mandioca era plantada na frente de casa. Eu aprendi com meu pai a puxar a raiz e também cortar os talos para colocá-los novamente na terra. Tenho aproveitado o plantio que meu falecido pai deixou.
As galinhas eu também aproveito. Vou todos os dias ver se há ovos para comer. Uso lenha no fogão para fazer a comida. Tudo é assado, porque quase não se tem água, e quando tem é para beber. O calor aqui é insuportável, se a gente não fizer tudo antes das 10 horas da manhã, o sol queima o coco da nossa cabeça.
Para mim, tudo está muito difícil! Não estou dando conta de fazer tudo o que devo fazer. Tenho muito medo de ficar sem comida para a minha irmã. Estamos com seis galinhas e um galo, nove pés de mandioca e sete de milho. Tenho que alimentar o boi, que sempre nos leva para a cidade para comprar feijão. Eu troco, às vezes, o leite por meio quilo de feijão. Como não tenho dinheiro, tento trocar por algo.

A minha mãe lavava a roupa no riacho e a trazia em um balde que colocava em cima da cabeça. Ela tinha tanta agilidade, que podia até correr e não deixava a roupa cair. Eu bem que tentei fazer isso, mas é muito pesado, então, levo a roupa de pouco em pouco até o riacho para lavar. Muitas vezes prefiro ficar com as roupas sujas…

- Antônia, o que vai acontecer com a gente?
- Eu não sei, mas não vou deixar você passar fome, isso pode ter certeza!
Capítulo 3
Méuri Luiza

segunda-feira, 18 de junho de 2012

ANTÔNIA - 1


Você tem mãe? Você conhece a cadeia? Sabe o que acontece lá? Vou contar minha história. Realmente a injustiça acontece e quando percebemos, estamos sem ninguém, simplesmente sozinhas nesse mundo. O que fazer? Recorrer a quem?
( História baseada em relatos de jovens que estiveram em uma cadeia feminina)
Imagine ter apenas 10 anos de idade e ver sua mãe caída no chão, morta. Foi o que aconteceu comigo.
A minha mãe teve uma parada cardíaca fulminante e morreu junto com as galinhas. Ela estava dando comida para elas no quintal e, de repente, caiu… Morreu…. Não deu tempo de socorrer. Nem que desse tempo, onde nós moramos não tem hospital. Eu fiquei perto do corpo dela esperando meu pai. Quando ele chegou, o corpo dela já estava gelado e seus lábios roxos. Fiquei o tempo todo sentada no chão e coloquei a cabecinha dela em meu colo. Minha irmã estava com meu pai. Eles estavam pegando água no riacho, que fica a cerca de 10 km de casa.
Meu pai chorou… Carregou minha mãe até a nossa casa e a colocou na cama. Seu corpo, imóvel, ficou lá por alguns minutos. Ele fez um buraco no fundo de casa e lá enterrou nossa mãe. Fez também uma cruz. A madeira vertical ficou torta, nem parecia uma cruz. Minha mãe, agora, estava embaixo da terra, no fundo de casa, perto das galinhas.
Eu me vi sozinha para cuidar da minha irmã e do pai que acreditava, não iria aguentar, ele era muito fraco nos seus sentimentos…
Eu me chamo Antônia, minha irmã Márcia, meu pai Pedro, e minha mãe, Cida.
-*-
Eu gostava muito de brincar com minha irmã. Ela é dois anos mais nova que eu. Nossa casa muito simples. Feita de pau-a-pique. Meu pai foi quem fez com um barro que se aplica num enramado de bambu.
A gente se divertia enquanto meu pai trabalhava.
Nós morávamos em outro lugar, mas estávamos ficando sem água, porque havia seca e até os animais vizinhos estavam morrendo. Agora, onde estamos, tem um riacho bem legal e meus pais acharam melhor ficarmos aqui para sobrevivermos. Para pegarmos água, vamos em uma carroça, e o boi vai puxando. Às vezes dói o corpo de tanto que chacoalha. Eles vão duas vezes na semana pegar água, e a gente armazena em barris. Dá para tomar banho de caneca, fazer a comida e alimentar as galinhas também.
Há algumas árvores em volta da casa. Tem jaca, pitomba, goiaba e graviola. Minha mãe fazia sucos para nós. Ela também fazia macaxeira assada, uma verdadeira delícia com suco de pitomba!
Minha irmãzinha sempre ficava comigo. A gente não se separava por nada. Um dia eu quis brincar com as espigas de milho fazendo bonecas. Ela ficou encantada, e a partir de então, brincávamos de casinha todos os dias.
Depois que a minha mãe morreu, a gente não brincou mais.
Eu já estava com dez anos, e ela com oito. Eu cuidava da Marcia, sempre cuidei. Quando ela acordava à noite, com dores de barriga, eu saía pelo quintal à procura de erva cidreira para fazer um chazinho para ela. O tempo foi passando e ela começou a me chamar de mãe. Eu achava meio estranho, mas não consegui tirar isso dela.
Aprendi a fazer comida, chás milagrosos, compotas, organizar a casa, limpar o chão de terra batida, fazer os sucos com as frutas do quintal e, o principal, cuidar do meu pai. Ele entrou em depressão profunda e a única coisa que fazia era buscar água com o boi para nós. Isso porque eu não aguentava com o peso dos barris.
Sempre cuidei de tudo. A minha mãe me ensinou muita coisa, mas eu sempre precisei dela. Quando fiquei mocinha, pensei que tivesse me machucado. Eu não sabia para quem falar. Tinha vergonha de falar sobre isso com o meu pai, porque eu não sabia o que era. Além disso, a nossa vizinha ficava a cerca de 20 km da minha casa. Depois de três meses eu descobri que era normal, porque todo mês acontecia.
Em parte, para mim, foi bom, porque quando aconteceu com minha irmã, eu já pude tirar de letra e ensiná-la. Meu pai nem ficou sabendo. Aliás, ele nem conversava com a gente. Um dia eu tive que dar macaxeira na boca dele. Nem comer ele estava comendo. A depressão estava matando aquele homem dia a dia.
Havia uma árvore a uns 40 metros de casa. A gente costumava subir nela para brincar, mas agora a gente não quer nem passar perto.

MARINA - CAPÍTULO 14


Mais alguns segundos e consegui dar a primeira respiração profunda. O oxigênio chegou aos meus pulmões…
Abri os olhos e as trevas já não estavam lá. Eu ainda sentia o meu cheiro de podre, mas o peso dos meus ombros sumiram. Eu estava leve, ainda fraca, mas leve… os demônios foram embora. Eu nem acreditei, mas eles que estavam me atormentando esses meses todos, foram embora.
Ali eu soube o quanto é imensa a misericórdia do DEUS ALTÍSSIMO! Ele me aceitou novamente, me aceitou como sua filha.
Precisei ver os demônios e o reino do inferno para ter meus olhos abertos e saber como age as trevas em  nosso coração e nos levar ao lago de fogo e enxofre.
Minha mãe entrou novamente no quarto para ver se eu ainda estava viva. Sorri para ela. Minha mãe chorou…
Fui salva naquele momento pela misericórdia do meu Deus. Sim agora Ele é o meu Deus. Deixou de ser meu inimigo como eu pensava…
Não acredito que teria vivido se não tivesse perdoado e desejado ardentemente minha salvação. O alívio que a gente sente quando nossa alma está limpa e pura é imediato.
Bá fez um mingau e me deu na boca. Minha gengiva já não sangrava mais. Ainda tinha feridas na boca, por isso a comida era de pouco em pouco. Ainda esta muito debilitada, muito fraca, mas já não sentia enjoo. Necessitava de ajuda para andar. Meu pai me colocou na cadeira de rodas e me levou no hospital no dia seguinte.
Dr. Tadeu se impressionou de me ver viva, um dia a mais do que ele havia dito. Quase que ele acertou ( risos).
Pedi outros exames, ele perguntou para quê?
Eu disse que estava curada. Ele riu.
Como o convenio pagava tudo, era vantagem para o hospital realizar os exames.
Dois dias depois o telefone tocou. Era a enfermeira do hospital, queria falar comigo.
Eles não estavam entendo como poderia ter dado negativo o exame em um paciente em estado terminal, afinal o médico havia pedido para meu pai comprar o caixão. Novos exames foram realizados e novamente o resultado foi negativo.
Dr. Tadeu me chamou no consultório um mês depois do milagre. Eu consegui ir andando, muito devagar mas sem a ajuda da cadeira de rodas. Ele me perguntou o que aconteceu e eu respondi:
- Consegui perdoar para ser perdoada…
- Então você realmente usou sua fé, porque era humanamente impossível a sua cura. Espero que nunca mais deixe o seu Deus, pois Ele é real.
- O senhor deveria conhece-Lo .( risos )
Deixei um livro em sua mesa, quem sabe ele lê.

Retornei para minha igreja. Voltei para Deus e Ele se voltou para mim.
Algum tempo se passou e meu cabelo começou a crescer. A cor dele é linda… eu nem me lembrava mais. Tive que tratar meus dentes, porque apodreceram todos. As feridas em meu corpo se fecharam. Fiquei com algumas marcas, mas isso não importa. Até gostei, assim jamais vou esquecer o que aconteceu comigo. Consegui engordar sete quilos, estou pesando agora 43 quilos. Estou indo bem para uma garota de 1,78. Recuperando dia a dia, porém agora na fé da minha salvação.

Lembra do Felipe? Ele se casou com a menina e tiveram gêmeos. Logo após o nascimento das crianças, eles se separaram, pois Felipe já se cansou dela e está noivo de outra.
E é assim, quando a gente ouve o coração é só sofrimento. O que parece ouro, com algum tempo vira ferrugem e de nada serve mais.
Um dia eu perdi o brilho por causa do coração, mas agora já estou esperta com ele. ( risos )
Essa que vocês estão vendo, sou eu, antes de conhecer o Felipe…

Espero que essa história ajude a compreenderem onde a mágoa leva o ser humano e não cometam o mesmo erro que eu um dia cometi…

Atenciosamente Marina.

FIM
PRÓXIMA TERÇA-FEIRA
ANTÔNIA…


Você tem mãe? Conhece a cadeia? Sabe o que acontece lá dentro?
Imagine ter apenas 10 anos de idade e já ter a responsabilidade de um adulto!  Foi o que aconteceu comigo…
Continua próxima terça-feira