terça-feira, 15 de maio de 2012

MARINA - CAPÍTULO 9


Eu fiquei um dia e meio no hospital, a menina morreu algumas horas antes de eu receber alta. No momento de sua morte os demônios vieram buscar sua alma… eu vi ! É horrível ! Vi o desespero da sua alma ! Vi o desespero !
Antes da sua morte olhei para ela, estava na cama colocada em  frente a minha. Ela era muito magra, careca e com os olhos fundos e roxos. A pele parecia verde, eu conseguia contar os ossos dela. As mãos eram muito feias, lembrei de uma caveira. A boca dela estava com muitas feridas. Ela sentia fortíssimas dores, a enfermeira toda hora aplicava morfina na menina. A dor passava por um tempo e depois voltava.Ela queria chamar a mãe mas não dava mais tempo! Eles a levaram! Eles a levaram! Os demônios a levaram.
Minha mãe estava do meu lado e eu nem falava com ela. Queria tomar um banho, mas ainda não podia me mexer.
Olhei para ela e chorei, eu não podia falar nada, como poderia explicar tudo aquilo? Minha mãe me abraçou e me abençoou…
Fiquei com a expressão da menina morta em minha mente. Uma garota de uns 23 anos, pele e osso, o rosto muito enrugado, as mãos horrorosas. O gemido de dor, a boca toda cheia de feridas e o desespero por estar sendo levada pelos demônios… A mãe chorando em cima do corpo da filha morta… será que minha mãe vai estar no lugar dessa mãe daqui alguns dias? Será que eu vou acabar assim?
Colocaram um lençol branco em cima dela e a levaram para o necrotério. Alguém ia fazer a tal autópsia. Acho que nem precisava, o câncer comeu o corpo todo dela, era só escrever isso.
Meu médico chegou e me deu um sorriso, disse que correu tudo bem na cirurgia, mas que eu deveria começar uma quimioterapia. Assinou um papel e me deu alta.
Meu pai foi nos buscar, eu e minha mãe. Com muita calma desci da cama, minha mãe trouxe um vestidinho bem solto para eu usar, um chinelo de borracha bem leve. Penteou o meu cabelo e fez um rabo de cavalo. Ela segurou no meu braço direito para que eu não caísse. Meu pai levou a sacola com minhas outras roupas.
Entrei no carro, fui na frente, minha mãe sentou-se atrás. No caminho meu pai fazia algumas brincadeiras para ver se eu me alegrava, mas não consegui esboçar nenhum sorriso. Fiquei olhando a paisagem e sentindo a dor na minha alma. Porque será que fiquei desse jeito?
Chegando em casa fui para meu quarto. Minha cama estava arrumada, com dois travesseiros grandes e muito gostosos, um edredom macio e aconchegante. Me deitei, minha mãe ajeitou minhas costas no colchão. A Bá, era uma ajudante que estava conosco desde que eu tinha cinco anos de idade. Ela fez uma sopa de mandioquinha para mim. Bateu no liquidificador e não colocou muito sal. Bá veio pessoalmente colocar a sopa em minha boca. Ela é muito engraçada, fazia aviãozinho para eu comer. Eu ria com isso. Estava sendo tratada como rainha por eles, mas dentro de mim havia um vazio imenso. Não sei o que era, nunca senti isso antes. Um abismo estava dentro do meu peito. Uma vontade de morrer mas ao mesmo tempo não sabia para onde minha alma iria. Mesmo eu tendo aprontado todas, minha mãe me amava, mas será que Deus me amava? Será que Ele se lembrava de mim? Essa dúvida estava dentro do meu coração o tempo todo. Uma voz dizia que eu não tinha mais salvação, que eu estava perdida em meus pecados, que eu não era digna da misericórdia Dele e que não adiantava orar, porque Ele não iria me ouvir… desespero….
Minha mãe chegou perto de mim e passou a mão em minha tatuagem, olhou para ela por alguns segundos. Pensei que iria me dar uma bronca, mas não… balançou a cabeça em sinal negativo e esboçou um sorriso. Não entendi.
Na semana seguinte comecei a químio. Uma sala com um aparelho estranho, um saquinho de soro com os remédios. Começou o tratamento… minha boca ficou seca, parecia que ia rachar. Senti um desconforto insuportável. Uma sensação horrorosa, nem conseguia falar, eu poderia beber toda água do mundo que a secura em minha boca não passava. Tive muita náusea, quando eu saí me receitaram outro remédio para tomar caso o enjoo continuasse. Meu pai passou na farmácia para comprar, eu não queria ficar no carro queria ir embora, estava muito mal, me sentia péssima.
Quando cheguei em casa não resisti e vomitei muito…muito mesmo… meu estomago doía, minhas costas também, não aguentava mais fazer força de tanto vomitar. Uma sensação de morte, quero minha cura! Pelo amor de Deus quero minha cura!.
Dois dias passando horrivelmente mal. Minha mãe ao meu lado sofrendo junto. Voltei a falar com ela. Bá fazia sucos, eu não conseguia tomar, não tinha fome.
Meu pai ligou para o médico e ele disse que era assim mesmo. Pediu para eu comer em pouca quantidade mas várias vezes durante o dia. A comida não descia em minha garganta. Tinha nojo dela. Nem água me sentia bem em beber, comecei a morrer vagarosamente…
Continua na próxima terça.

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